A Saga dos Rücker

Nos moldes das antigas sagas germânicas

Na terra da Silésia, sob o céu da Prússia, viveu Georg Rücker, patriarca nascido em 1789. De seu sangue nasceu Vincentius Joseph, que carregou o nome adiante através dos séculos, até que o destino chamou seus descendentes para o outro lado do oceano.

No ano de 1898, três irmãos embarcaram rumo ao Novo Mundo. Um deles, Anton, desapareceu da história como desaparecem os heróis nas velhas sagas — ninguém sabe ao certo se ficou na Europa ou se sua linhagem também cruzou o mar. Os outros dois selaram, sem saber, o destino de duas terras: August Ambros fincou raízes no Rio Grande do Sul, onde teve quinze filhos; Ambros August seguiu para Santa Catarina, ao lado de Amália Rathmann, e ali fundou seu próprio reino.

Gerações depois, dois guardiões sustentaram cada margem: no Rio Grande, Siegmundo, que revelava os rostos da família em retratos, como quem guarda a memória do clã em imagens; em Santa Catarina, Herberto, que plantava a uva e fazia o vinho da terra nova.

Dos dois ramos nasceram dezenas de nomes — os vivos e os breves, os que ficaram e os que partiram cedo — todos tecidos numa só malha que atravessa a Silésia, o Rio Grande e Santa Catarina, e que segue sendo escrita até hoje.

E a malha cresceu. Não por um único fio, mas por muitos, entrelaçados sem hierarquia — pois nenhuma saga verdadeira pertence a um só nome.

No Rio Grande, seis irmãos nasceram de Siegmundo, e cada um seguiu seu próprio caminho sem que nenhum ofuscasse o outro — um guardou a terra, outro guardou a memória, outro guardou o silêncio das coisas não ditas. Em Santa Catarina, catorze vozes nasceram de Herberto e Olydia, e ainda hoje alguns desses nomes esperam para ser recontados por inteiro — pois toda saga tem seus capítulos incompletos, suas páginas que a chuva apagou.

Os netos vieram depois, primos que se tornaram irmãos de convivência, e irmãos que se tornaram primos pela distância das terras. Uns ficaram nas cidades pequenas, junto às videiras e às linhas de trem; outros seguiram para longe, levando o nome Rücker — ou, em algumas mãos, Ruecker — como quem leva um brasão sem escudo, só a lembrança de onde veio.

Houve também os que ficaram pouco tempo entre os vivos — um mês, um acidente, uma vida interrompida cedo — e mesmo esses continuam tecidos na malha, porque uma família não descarta os fios curtos: ela os guarda, e os nomeia, e não deixa que o tempo os apague.

Não há um único herói nesta saga. Há uma travessia, um oceano, duas margens, e um nome que se multiplicou sem nunca se perder de si mesmo.

Toda saga tem também sua terra de origem além-mar, aquela que os viajantes deixaram para trás sem nunca a esquecer por completo. Na Silésia, o nome Rücker seguiu existindo mesmo depois da travessia — em registros de batismo guardados em paróquias distantes, em páginas que ainda hoje resistem a serem lidas por inteiro. Diz-se que há um livro, escrito no ano de 1914, onde um Rücker deixou sua marca não em terra lavrada, mas em palavras — um mestre que ensinou letras a crianças que nunca souberam de onde vinha seu sobrenome. Se foi este ou aquele irmão, a saga ainda hesita em dizer; algumas verdades só se revelam quando alguém, do outro lado do tempo, encontra o papel certo.

Não foi só a terra que a família atravessou — foi também o ofício. Uns guardaram livros e números nas cidades grandes; outros guardaram imagens reveladas em quartos escuros; outros ainda guardaram histórias contadas em telas de cinema, levando luz e sombra por vilarejos que mal sabiam pronunciar o nome Rücker direito. Cada ofício foi, à sua maneira, uma forma de não deixar a memória apagar.

E assim, entre os que lavraram a terra e os que lavraram a memória, a saga segue dupla: uma escrita em plantações e colheitas, outra escrita em fotografias, livros e nomes recuperados. Nenhuma vale mais que a outra. As duas juntas são o que resta de um patriarca que, em 1789, não podia imaginar quantas mãos um dia carregariam seu nome.

Mas nem toda saga é feita só de guardiões pacientes. Houve também os que a história quase perdeu de vista — Anton, o irmão do cais de Hamburgo, cujo destino ninguém sabe dizer ao certo. As sagas antigas sempre guardam um nome assim, um vulto que se recusa a ser encontrado.

Houve também os enganos gravados em pedra — nomes trocados, uma filha que a lápide chamou de irmã, uma data que um homem preferiu celebrar em vez da data verdadeira. Não foram vilões, esses — foram apenas homens e mulheres que a memória, com o tempo, distorceu um pouco, como distorce toda memória contada de boca em boca por gerações.

E há os que seguem guardando a saga viva até hoje — Paulo Renato e seus irmãos, que nasceram ainda perto o bastante da travessia para carregar suas histórias em primeira mão, e que continuam, com suas próprias vozes, contando o que viram e o que ouviram contar.

É aqui que o narrador se retira, não porque a história tenha terminado, mas porque a partir daqui ela pertence a quem ainda pode contá-la com a própria voz. Entre a Silésia e as duas margens do Novo Mundo, ficam guardados os nomes: os que atravessaram, os que se perderam, os que plantaram, os que guardaram retratos, os que a pedra lembrou errado — e os que ainda estão aqui para dizer o que de fato aconteceu.

Aqui o narrador se cala — mas a saga, essa, continua sendo vivida.

← Voltar para Família

Compartilhar Adicionar Relato à História