O Regente da Fronteira

A jornada de Ambrósio Augusto Rücker

Wölfelsgrund, 1870 — Maratá, Porto União (SC), 1955

A vida de Ambros August Rücker — ou simplesmente Ambrósio Augusto, como a nova terra viria a chamá-lo — é a história de um homem que se recusou a deixar a civilização para trás ao desbravar o desconhecido. Onde outros viam apenas mato a derrubar, ele viu também um coral a formar.

I. Raízes na Silésia

Nasceu em 7 de janeiro de 1870, no rigoroso inverno de Wölfelsgrund, na Silésia prussiana, filho de Vincentius Joseph Rücker — "Vizenz", para os seus — e de Beata Larisch. O pai era mestre florestal, e do ofício do pai Ambrósio herdou mais do que o gosto pela mata: herdou a disciplina, a Bildung — aquela formação cultural prussiana sólida, quase severa — e um apreço inegociável pela música, algo que definiria toda a sua vida no Brasil.

II. A primeira travessia

Aos 28 anos, solteiro, cruzou o Atlântico nos porões de um vapor da Hamburg-Süd, partindo de Hamburgo junto do pai e dos irmãos. Desembarcou em 1898 e seguiu até a Colônia 16, em Dois Irmãos, no Rio Grande do Sul. No mesmo grupo de imigrantes viajava, também solteira, uma jovem de 27 anos chamada Amalia Rathmann. Em 22 de julho de 1899, os dois se casaram.

Por pouco mais de duas décadas, o casal viveu em São Pedro do Maratá, no Vale do Caí, onde os filhos nasceram e o trabalho da terra forjou os primeiros anos de Brasil. Ambrósio poderia ter terminado ali seus dias — como, de fato, terminaria os seus o próprio irmão, August Ambros, que jamais deixaria aquele vale gaúcho. Mas o destino de Ambrósio reservava uma segunda travessia.

III. Nova Maratá

Em meados de setembro de 1921, já com 51 anos — idade em que muitos buscam apenas descanso —, Ambrósio partiu com Amália e uma comitiva de 53 pioneiros rumo às terras do planalto catarinense. Foram cinco dias e quatro noites de trem até a Estação de Nova Galícia, em Porto União. Dali em diante, a viagem seguiu a cavalo e em carroças puxadas por juntas de bois, por picadas que os próprios colonos abriam a machado.

Não havia poder público naquela fronteira. Eram os colonos que erguiam pontes sobre rios como o Liso e o Taquaral — pontes que enchentes destruíam e que os colonos, sem hesitar, reconstruíam. Foi por essa terra bruta que Ambrósio avançou, até o lugar onde a comitiva, em homenagem à terra que deixara para trás, decidiu batizar de "Nova Maratá" — hoje, simplesmente Maratá.

IV. O rancho que virou capela e escola

A grandeza de Ambrósio não estava em derrubar o mato. Estava em erguer o espírito de um povo. Assim que a comitiva levantou o primeiro rancho — madeira roliça, tábuas, muitas goteiras —, ele garantiu que aquele espaço servisse a dois propósitos: capela aos domingos, escola durante a semana.

No primeiro Natal em terra catarinense, em 1921, com o rancho "nem bem pronto", Ambrósio reuniu aquela gente simples, sem estudo musical, e ensaiou com ela, domingo após domingo, um único hino. Na noite de 24 de dezembro, todos juntos entoaram Louvado seja Deus, em alemão. Um dos meninos daquela comitiva, Theobaldo Raimundo Lerner — que ficaria conhecido, décadas depois, como "Raymundinho" — jamais esqueceu a cena, e foi ele quem a registrou por escrito, anos mais tarde, no único relato impresso e não-familiar que menciona "o velho Ambrósio Augusto Rücker". No ano seguinte, quando a comunidade ergueu uma igreja maior, desta vez no alto do morro onde hoje fica o cemitério de Maratá, voltaram a cantar — agora a quatro vozes — o Grosser Gott, wir loben dich: Deus eterno, nós vos louvamos.

V. O professor da fronteira

Naquela colônia onde a prefeitura era uma ideia distante, "o velho Ambrósio" assumiu a lousa e a batuta. Tornou-se o Volksschullehrer — o professor da comunidade — e regente de coral, líder dos cantos religiosos em alemão. Quando a comunidade decidiu, a seu pedido, construir uma escola de verdade, foi ele mesmo quem ofereceu a própria casa para que as aulas não parassem enquanto a nova escola não ficava pronta. Ergueu-se assim, em 1922, a primeira escola de Maratá catarinense.

A escola, sob sua liderança, era também lugar de festa: ali o povo se reunia para contar histórias, e Ambrósio tocava uma musiquinha para que todos dançassem. Envelheceu a serviço da comunidade — assim o descreveu quem o viu envelhecer. Em 1932, já com mais de sessenta anos, ainda arrumava tempo para ensaiar cantos, e chegou a organizar uma pequena banda de música na colônia.

Vale registrar não uma diferença, mas um espelho entre os dois irmãos, tão parecidos em vocação quanto em nome quase invertido pela história: também August Ambros, no Rio Grande, foi Volksschullehrer de sua comunidade e regeu coral entre os seus — os mesmos papéis que Ambrósio Augusto exerceria, anos depois, em Maratá catarinense. Dois irmãos, duas fronteiras, um único gesto repetido: impor beleza onde só havia dureza.

VI. Herbert, Lídia, e uma noite que a família ainda reconhece

Entre os catorze filhos de Herberto e sua esposa — que o acervo da família registra como Olydia Regina, mas que Raymundinho, vizinho e cronista da colônia, chamava simplesmente de "Lídia", talvez o jeito carinhoso e informal como a chamavam no dia a dia — está uma cena que atravessou o tempo em duas versões: a escrita, de um vizinho que a testemunhou de fora, e a oral, de um neto que a reconheceu de dentro.

Raymundinho contou assim: Herberto e a esposa trabalharam até a meia-noite fazendo bolos para uma festa da colônia. Passada a meia-noite, nasceu o filho do casal. E, de manhã cedo, sem descanso, Herberto precisou ir para o trabalho, deixando mulher e recém-nascido na cama. "Todo sacrifício pela colônia", resumiu Raymundinho — uma frase que poderia servir de epitáfio para pai e filho.

Por quase um século, essa cena ficou sem nome — um filho anônimo entre os catorze de Herberto e Olydia. Até que, ao ler este texto, um bisneto de Ambrósio Augusto reconheceu a história como sendo a sua própria. Idalmar Rücker, neto de Herberto pelo lado do filho Sérgio Adriano, ouviu falar daquela noite de bolos e sacrifício — e é voz corrente na família, segundo relato do próprio Idalmar, que o menino nascido ali, na madrugada fria de Maratá, era justamente Sérgio Adriano Rücker, que viria ao mundo em 8 de setembro de 1946. Se a memória da família se confirmar, o recém-nascido que dormiu ao lado da mãe enquanto o pai voltava à lida, sem uma noite de descanso, é o mesmo Sérgio que décadas depois daria nome, ao lado do irmão Leonardo, à Sociedade Esportiva Maratá — dois meninos daquela colônia sacrificada, virando patronos do lugar onde nasceram.

VII. O Jazigo 1

Ambrósio Augusto Rücker viveu para ver a colônia se consolidar. Despediu-se de Amália em 1947, e seguiu firme até 1º de outubro de 1955, quando faleceu aos 85 anos, ali mesmo em Maratá — a terra que ajudara a erguer do nada trinta e quatro anos antes. Hoje, marido e mulher repousam juntos no Jazigo 1 do cemitério de Maratá, Porto União, exatamente no morro que a comunidade escolhera para sua igreja, "para ser vista de longe".

Para os descendentes que olham para trás, a vida de Ambrósio Augusto deixa uma lição clara: não se ergue uma colônia apenas com paredes de madeira e estradas abertas no barro. Ergue-se um lar quando, no meio do silêncio da mata, alguém afina a voz do povo e o ensina a cantar junto — e essa voz, ainda hoje, some vez ou outra e depois volta, quando um neto reconhece a própria história numa página escrita por um vizinho, quase cem anos atrás.

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