Augusto Ambrósio
Um homem entre dois mundos
Augusto Ambrósio Rücker nasceu em 11 de março de 1865, em Wölfelsgrund, na Silésia — quando a Alemanha, como país, ainda nem existia. O menino cresceu numa comunidade de montanha que aos poucos se tornava outra coisa: Wölfelsgrund virava Luftkurort, estação de repouso e cura, procurada por visitantes de cidades distantes. Hotéis surgiam onde antes só havia trilhas e propriedades rurais. E foi ali, entre moradores e forasteiros, que talvez um jovem tenha visto pela primeira vez uma câmera fotográfica — e guardado aquilo para depois.
Porque décadas mais tarde, do outro lado do Atlântico, seria exatamente isso que ele diria de si mesmo.
Contava-se na família que a partida não fora simples escolha — que algo acontecera numa ronda florestal, envolvendo os filhos, e que o pai preferira embarcar a família inteira a esperar para ver no que aquilo ia dar. A história corre entre os Rücker até hoje, contada e recontada, sem que ninguém precise jurar por ela.
O que os documentos confirmam é mais seco, e não menos definitivo: em 1898, viúvo, já perto dos setenta anos, Vincentius deixou a Silésia com os filhos que pôde levar. Augusto tinha 33 anos. Cinco pessoas, um vapor da Hamburg-Süd, o porão de terceira classe reservado aos emigrantes. Três a quatro semanas de travessia — tempo suficiente para que a Europa desaparecesse devagar atrás do navio, primeiro o porto, depois a costa, depois só água.
O manifesto de embarque registra nomes, idades, origem, destino. Não registra o que se pensa numa travessia dessas. Isso a família teve de inventar sozinha, geração após geração.
Desembarcaram num Brasil que ainda não sabia bem o que era Brasil — jovem república, marcada por guerras civis recentes. Mas a terra para onde seguiram já tinha alemães havia oitenta anos: Dois Irmãos, antiga Colônia de São Leopoldo, tecida em picadas, igrejas e escolas que ligavam família a família como uma rede.
Em 17 de setembro de 1899, pouco mais de um ano depois de chegar, Augusto casou-se em Linha Nova com Philippine Saft. Ele tinha 34 anos; ela, 24. E no registro de casamento, ao lado do nome, uma palavra que muda tudo: Photograph.
Não é lenda de família. Não é algo que alguém lembrou depois. Está escrito no papel, com data e assinatura: um imigrante recém-chegado que já se apresentava, oficialmente, como fotógrafo. A Silésia não tinha ficado para trás — tinha atravessado o oceano dentro dele.
Em 1904, mudou-se para Vitória, em Maratá, comunidade que já existia havia meio século às margens do arroio. Cinco anos depois, em 27 de dezembro de 1909, a ferrovia chegou — ligando Porto Alegre a Caxias do Sul, encurtando um mundo que até então se media a passo de estrada. Augusto tinha 44 anos.
Primeiro fora o navio.
Agora era o trem.
Ele parecia sempre estar exatamente onde as coisas mudavam de escala.
E ali, fotógrafo de chapas de vidro, comerciante, professor comunitário, também foi o homem que trouxe a Hausmusik para dentro de casa — a música que não se toca para plateia, mas para a família reunida à noite. Ensinou violino e harmônio aos próprios filhos. Não por acaso: eram quinze.
Quinze filhos, Philippine e Augusto — um número que durante anos as listas antigas confundiram, até que fotografias e registros, cruzados um a um, resolvessem a conta. Difícil não imaginar aquela casa: os instrumentos, os pratos, os nomes, as vozes se sobrepondo.
Em 1914 a Europa entrou em guerra, e a Alemanha que Augusto deixara em 1898 — a mesma que ele mal chegara a conhecer como país — virou-se contra o mundo. Ele tinha 49 anos e estava a um oceano de distância, mas a distância nunca é suficiente para apagar uma língua, um sobrenome, um jeito de cantar. Seus filhos já eram brasileiros de nascença; dentro de casa, ainda assim, havia outra memória correndo por baixo da primeira.
Foi essa segunda memória que o Estado Novo, décadas depois, tentaria calar. Quando Vargas assumiu, em 1930, Augusto tinha 65 anos; quando veio a Campanha de Nacionalização, 72 — e ela foi direto ao que sustentava sua vida inteira: a escola, a língua, a comunidade. Não sabemos o que se sentiu dentro daquela casa quando o alemão virou língua vigiada. Sabemos apenas que era tarde demais para recomeçar de novo, e cedo demais para parar de viver.
A Segunda Guerra o encontrou com 77 anos — um velho que já não era o rapaz que embarcara em Hamburgo, nem o noivo de Linha Nova, nem o comerciante que chegara a Maratá antes do trem. Mas continuava ali, dentro da história, como sempre estivera.
Uma fotografia de 11 de março de 1945 registra a comemoração dos seus 80 anos. É a última imagem que o acervo guarda dele: o menino nascido numa Silésia que ainda não era Alemanha, fotografado meio século depois por alguém — talvez por um dos próprios filhos que ensinara — do outro lado do mundo que ele havia atravessado a bordo de um vapor, sem saber ainda quantas vidas caberiam na sua.