O Tio Grande e a Festa que Nasceu de um Enterro

José Rücker e a Rückertreffen de 1975

I.

Há uma pergunta incômoda por trás de toda memória de família: o que lembramos porque aconteceu, e o que lembramos porque alguém grande demais para ser esquecido estava lá?

II.

Dias antes da primeira Rückertreffen, em 1975, Albano Rücker morreu de forma repentina. A família ainda enterrava o irmão quando decidiu, entre si, que não se deixaria dispersar. Escolheram 6 de julho — aniversário da avó Philippine Saft — para o primeiro encontro. Não foi um plano de longo prazo, não foi uma ideia amadurecida em anos de conversa. Foi uma resposta imediata, quase um reflexo, tomada por um grupo de irmãos e primos ainda de luto. Nenhum registro diz quem propôs a data, quem convenceu os outros, quem carregou as cadeiras. A origem da tradição pertence a todos eles, e a nenhum em particular.

III.

É aí que a memória da família tropeça — e talvez seja exatamente esse tropeço que vale a pena registrar. Porque, décadas depois, quando se pergunta quem foi a Rückertreffen, muita gente responde com uma imagem só: um homem grandão, comandando a logística, garantindo que a carne rendesse e que a ordem prevalecesse sobre o caos de um pátio cheio de parentes. José Rücker.

IV.

Ele estava lá, sem dúvida — um dos irmãos de Albano, com 61 anos naquele julho de 1975, na idade e na posição de quem já enterrara um irmão mais novo e sabia o peso disso. Mas estar lá, e até ter sido, nos anos seguintes, uma presença organizadora forte nas festas, é uma coisa. Ter fundado a tradição é outra — e essa segunda afirmação, por mais que a memória de infância a sustente com convicção, não tem lastro documental. A família decidiu em conjunto. José talvez tenha sido apenas o mais visível dos que decidiram.

V.

E é curioso que fosse justamente ele o rosto que ficou. Porque José, fora das festas, não era homem de logística de churrasco: era professor de ensino primário, registrado em Porto Alegre em 1943, e passou anos na redação da Paulusblatt, revista católica da colônia alemã. Um homem de letras e sala de aula, que nas Rückertreffen se transformava — ou talvez apenas se revelasse — em outra coisa: uma presença física maciça, que ocupava espaço não só pelo porte, mas pela atitude de quem assumia responsabilidade sem que ninguém pedisse. Casou-se em 1936, em Feliz, com Ignês Schuh Rücker, Zita; teve seis filhos; veranearam por décadas em Capão da Canoa. Nada nessa vida indica vocação natural de organizador de multidões — e, ainda assim, é essa a imagem que atravessou gerações.

VI.

Talvez a explicação não esteja em José, mas em como as crianças guardam memória de festa: não os nomes dos que decidiram criar a tradição num quarto de luto, mas o corpo do tio que, todo ano, parecia sozinho segurar a ordem sobre o caos. A fundação foi coletiva e quase anônima. O rosto que ficou foi o de quem, depois, mais se via trabalhando.

VII.

As Rückertreffen atravessaram a década de 1980 e passaram, aos poucos, para a geração seguinte — não por decreto, mas pela mesma necessidade prática que as havia criado em 1975: manter a família junta apesar da distância. José morreria em 2006, aos 91 anos. A festa que a memória familiar insiste em colocar em suas mãos nasceu, na verdade, das mãos de todos — inclusive as dele, mas não só.

Compartilhar Adicionar Relato à História