O Causo do Berlet
O genro dos Rücker que sumiu onze dias no mato de Sarandi e voltou falando alemão com um acartiano.
Contam os mais antigos da colônia — e registra também o próprio acervo da família Rücker — que Artur Berlet não era um estranho qualquer para essas bandas. Genro por casamento, entrou na família ao desposar Hildegard Kayser, filha de Hedwig Guilhermina Rücker, uma das filhas de August Ambros Rücker e Philippine Saft, o casal que criou raízes na colônia. Não corria sangue Rücker nas veias do Berlet — mas corria, sim, a mesma língua antiga da colônia, o alemão trazido de além-mar e ainda falado em casa, na igreja e na roda de chimarrão.
Tratorista da prefeitura de Sarandi e fotógrafo de casamentos nas horas vagas, Berlet tinha ido registrar um casório lá pelos lados de Encruzilhada Natalino. Perdeu o último ônibus de volta e resolveu encarar a pé os dezoito quilômetros de estrada de chão. Era 14 de maio de 1958, já passava das sete da noite, quando, perto da fazenda do doutor Dionísio Peretti, uma luz esquisita rasgou o escuro do mato. Berlet atravessou a cerca de arame para ver de perto — e topou com duas estruturas enormes, uma sobreposta à outra, do tamanho de um galpão, flutuando quietas sobre o capim. Um facho de luz o derrubou no chão. Quando abriu os olhos de novo, não estava mais em Sarandi.
Contou depois que fora parar num lugar chamado Acart, planeta a sessenta e cinco milhões de quilômetros da Terra. E é aqui que o causo ganha o tempero da colônia: dizem que, entre os acartianos, havia um que falava alemão — o mesmo alemão gaúcho, cheio de sotaque puxado, que Berlet trazia de casa. Foi nessa língua dos avós que os dois conversaram, enquanto os outros só olhavam, encantados. Onze dias durou o sumiço, tempo suficiente pra colônia inteira rezar terço e organizar batida de mato.
Berlet voltou magro, calado, com o olhar de quem tinha visto luz demais. Em segredo, escreveu tudo a lápis, em catorze cadernos escolares, sem margem nem pontuação — a mão tremendo de tanta coisa pra contar. Anos depois, aquilo virou livro, "Os Discos Voadores: Da Utopia à Realidade", publicado em 1967 e reeditado outras vezes, com tradução para o alemão. Em 1972, foi convidado a narrar pessoalmente sua história num congresso em Wiesbaden, na Alemanha — falou por quatro horas seguidas, traduzido simultaneamente por três intérpretes, levando o alemão da colônia gaúcha de volta à terra de origem da própria língua.
Entre os detalhes que Berlet jurava ter vivido, um sempre chamava atenção: contava que, olhando para baixo do veículo que sobrevoava a cidade de Acart, viu a Terra — e disse que ela era azul. Foi quase três anos antes de o cosmonauta Yuri Gagarin descrever a mesma cor, do espaço de verdade, em 1961.
O resto da vida do Berlet também ficou guardado na memória da família: perdeu uma perna num acidente com explosivos numa pedreira da prefeitura, e passou a ajudar a esposa Hildegard na loja de fotografia da família, a Foto Padre Reus, em Sarandi. Morreu em 1994, depois de enfrentar uma doença longa.
O causo, porém, não parou nele. Virou monumento de quinze metros na Praça da Cidadania Arduíno Saretto, no bairro Vicentinos, com uma esfera de disco voador de dois metros e meio brilhando no meio do pátio — entregue oficialmente em 14 de maio de 2026, exatos sessenta e oito anos depois da noite em que a luz apareceu no mato. E toda vez que alguém da colônia esquenta a chaleira tarde da noite, ainda se ouve a mesma brincadeira: será que não foi algum parente de sobrenome puxado do alemão, lá no fundo daquela nave, ensinando o be-á-bá da língua ao tal acartiano — só para ver se ele levava de volta, pro outro planeta, uma receita de cuca e um bom pé de parreira?