Vô Mundo: quando ensinar também era um ato de adaptação

Uma história de família, de escolas e de um Brasil que queria ensinar aos brasileiros como deveriam ser brasileiros.

Picada São Gabriel e Cruzeiro do Sul (RS), 1939–1950

Há histórias de família que sobrevivem nas fotografias, nos nomes repetidos de geração em geração, nas lembranças contadas à mesa e nas expressões que ninguém sabe mais de onde vieram. Outras ficam guardadas em lugares menos evidentes: cadernos antigos, livros de atas, registros de exames e assinaturas feitas com a formalidade de quem precisava prestar contas a alguém.

A história do meu avô, Siegmundo Rücker, o nosso Vô Mundo, está também nesses papéis.

Quando comecei a olhar para os documentos de sua vida como professor, percebi que não estava apenas recuperando a trajetória profissional de um antepassado. Estava abrindo uma janela para um Brasil que muitas vezes conhecemos apenas pelos grandes acontecimentos, pelos nomes dos presidentes e pelas datas dos decretos. Um Brasil que, longe dos palácios e dos gabinetes, chegava às pequenas comunidades por meio de fiscais, professores, programas escolares, hinos e regras que determinavam o que podia ser ensinado e em qual língua.

E meu avô estava lá.

Um jovem professor em um país em transformação

Siegmundo nasceu em 23 de maio de 1918, em território brasileiro. Em dezembro de 1939, aos 21 anos, já regia uma turma de aproximadamente 35 alunos. Era jovem, mas tinha diante de si uma responsabilidade adulta: ensinar crianças, organizar exames, acompanhar o aprendizado e manter uma escola funcionando.

Os registros que estamos reunindo documentam sua atuação em duas escolas: a Escola Imaculada Conceição, na Picada São Gabriel, e o Colégio Paroquial Santa Therezinha, também identificado como Escola Particular nº 26, em Cruzeiro do Sul, localidade que durante parte daquele período passou a chamar-se Setembrina.

Não eram escolas isoladas da vida da comunidade. Eram parte dela. Ali, crianças aprendiam a ler, escrever e calcular, mas também entravam em contato com a história, a geografia, a religião e os símbolos da pátria.

Enquanto isso, o Brasil atravessava um dos períodos mais centralizadores de sua história.

Getúlio Vargas estava no poder. Em novembro de 1937, o Estado Novo havia instaurado uma ditadura que ampliava o controle estatal sobre a vida política e as instituições do país. A construção de uma identidade nacional uniforme tornou-se uma das preocupações do regime. A escola, naturalmente, ocupava um lugar estratégico nesse projeto.

Para compreender o que isso significava para o meu avô, precisamos voltar um pouco.

Quando a língua passou a ser uma questão de Estado

No sul do Brasil, comunidades de origem alemã haviam construído, ao longo de gerações, suas próprias instituições: associações, igrejas, jornais e escolas. A língua alemã fazia parte da vida cotidiana de muitas famílias. Isso não significava que seus integrantes deixassem de ser brasileiros, nem que todos compartilhassem as mesmas ideias sobre cultura, política ou identidade.

Mas, para os defensores de uma nacionalização conduzida de cima para baixo, essas comunidades representavam um problema a ser resolvido.

A preocupação com a integração nacional era anterior ao Estado Novo. Durante o governo Vargas, porém, ela ganhou instrumentos mais rigorosos de intervenção.

O Decreto-Lei nº 406, de 4 de maio de 1938, estabeleceu exigências para o ensino nas escolas de áreas rurais, entre elas o uso da língua portuguesa, a regência por brasileiros natos e o emprego de livros escolares em português. O Decreto-Lei nº 1.545, de 1939, aprofundou a orientação de adaptação dos descendentes de estrangeiros à cultura nacional.

A escola deixou, assim, de ser apenas o lugar onde se transmitia conhecimento. Tornou-se também um instrumento para a execução de um projeto político.

É importante entender a diferença. Ensinar português a uma criança é ampliar suas possibilidades de comunicação, estudo e participação na sociedade. Determinar que uma cultura familiar deve ceder espaço a uma identidade imposta pelo Estado é outra coisa.

Uma sociedade livre pode integrar sem exigir que todos abandonem suas particularidades. Um Estado autoritário tende a desconfiar daquilo que não consegue uniformizar.

Foi nesse ambiente que meu avô exerceu o magistério.

Os livros que testemunharam uma época

Os livros de atas de Siegmundo são valiosos justamente porque não foram escritos para contar uma história aos descendentes. Foram produzidos para registrar a vida escolar, os exames, as visitas e as exigências administrativas de seu tempo.

É neles que encontramos a dimensão concreta da história.

Em dezembro de 1939, antes do primeiro termo de inspeção registrado no acervo, o programa de História Pátria já percorria um caminho que ia dos indígenas até o Estado Novo. A Instrução Cívica incluía a bandeira, o hino e a pátria.

Esse detalhe merece atenção.

A presença de conteúdos cívicos não começou com a chegada de um fiscal à escola. Quando a fiscalização aparece nos registros, parte da adaptação curricular já está em andamento. Isso é compatível com a interpretação de que a nacionalização oficial acelerou um processo de transformação que vinha de antes, embora os documentos, por si sós, não permitam reconstruir todas as razões pelas quais cada conteúdo foi adotado.

Em 7 de agosto de 1940, aparece o primeiro termo de inspeção escolar no Livro nº 1.

A partir dali, os registros permitem acompanhar a presença dos agentes de fiscalização, as avaliações e a aplicação das normas. Em novembro de 1943, o livro menciona nominalmente a Portaria estadual nº 27.079, de 13 de maio daquele ano. É um exemplo de como os documentos familiares podem preservar informações que merecem investigação histórica mais ampla.

O que impressiona é a continuidade.

Os registros atravessam a guerra, as mudanças políticas e o fim do Estado Novo. Em 1948, 1949 e 1950, ainda aparecem inspeções que fazem referência à legislação do ensino particular relacionada à nacionalização.

O regime havia terminado em 1945. A estrutura administrativa, entretanto, não desapareceu com ele.

A história dos grandes acontecimentos costuma ser contada por rupturas: um governo começa, outro termina, uma lei é revogada, uma Constituição é promulgada. Na vida cotidiana, as mudanças podem ser mais lentas. Os formulários continuam circulando, os funcionários permanecem em seus postos e as práticas institucionais sobrevivem à conjuntura que lhes deu origem.

É isso que os livros permitem observar.

O lado menos conhecido da nacionalização

Quando se fala na campanha de nacionalização do ensino no sul do Brasil, a memória regional frequentemente destaca os episódios mais duros: escolas fechadas, restrições ao uso do alemão, denúncias, prisões e conflitos envolvendo comunidades e autoridades.

Esses episódios precisam ser investigados e documentados. Não podem ser apagados.

Mas existe outra pergunta histórica igualmente legítima: o que aconteceu com os professores que continuaram trabalhando dentro das regras estabelecidas pelo poder público?

A documentação de Siegmundo oferece uma resposta parcial, mas importante.

Suas escolas continuaram funcionando. Os livros registram exames, aprovações, visitas de autoridades e elogios ao trabalho docente. Em dezembro de 1943, por exemplo, uma ata destaca que 60 alunos estavam uniformizados. Em outros momentos aparecem votos de louvor e manifestações positivas sobre o desempenho do professor.

Não encontramos, nessa série documental, o retrato de uma escola interrompida pela repressão. Encontramos a continuidade de um trabalho submetido à fiscalização e às exigências oficiais.

Isso não significa que meu avô não tenha enfrentado dificuldades. Tampouco nos autoriza a afirmar que tenha sofrido determinada perseguição, que tenha concordado intimamente com todas as normas ou que tenha se sentido protegido por alguma instituição. Para essas conclusões, precisaríamos de outras fontes.

O que podemos dizer é que sua trajetória documentada revela uma das faces da campanha: a de um professor que manteve suas escolas em funcionamento em meio a um processo de crescente regulamentação e controle.

A repressão sofrida por algumas comunidades e a adaptação de outras não são histórias incompatíveis. São partes de um mesmo período, vividas em circunstâncias diferentes.

A história fica mais interessante — e mais honesta — quando conseguimos enxergar ambas.

Ensinar, aprender e continuar

Há algo particularmente humano nos registros escolares: por trás das disciplinas e das porcentagens de aprovação, havia crianças.

Crianças aprendendo a escrever, resolvendo problemas matemáticos, estudando geografia, cantando hinos e participando de exames. Algumas cresceram em famílias nas quais a língua alemã fazia parte da vida doméstica. Outras provavelmente viveram experiências diferentes. Não devemos presumir que todas pensassem da mesma maneira ou que todas tenham experimentado a campanha de forma idêntica.

O currículo também revela essa combinação de permanências e mudanças.

A História Pátria e a Instrução Cívica ocupavam seu lugar. O canto incluía o Hino Nacional, o Hino à Bandeira e a Marcha do Estudante. Ao mesmo tempo, permaneciam o catecismo, os trabalhos manuais, a costura e os conteúdos matemáticos necessários à vida prática.

O Estado podia determinar programas, exigir uniformes e fiscalizar procedimentos. Mas a escola continuava sendo uma instituição concreta, sustentada pelo trabalho cotidiano de quem ensinava e pela presença de quem aprendia.

Talvez seja justamente aí que a história do meu avô se torne mais próxima de nós.

Não temos de transformá-lo em herói de uma resistência que os documentos não comprovam, nem em representante passivo de um regime. Podemos reconhecê-lo pelo que a documentação efetivamente mostra: um professor que trabalhou durante anos, em duas escolas, atravessando mudanças profundas no país e cumprindo as responsabilidades de seu ofício.

Às vezes, a coragem histórica não aparece em grandes discursos. Às vezes, o que fica registrado é simplesmente a continuidade de um trabalho em circunstâncias que não foram escolhidas por quem o realizava.

Não sabemos tudo o que Siegmundo pensava sobre aquelas transformações. Os livros de atas não foram escritos para responder a essa pergunta. Mas sabemos que ele estava lá, trabalhando, ensinando e registrando a passagem de seus alunos pelas escolas.

E isso já nos diz bastante.

O que os documentos devolvem à família

Ao pesquisar a trajetória de Siegmundo, descobrimos também que os próprios nomes dos lugares contam uma história.

A região em que ele trabalhou atravessou mudanças administrativas e toponímicas. A localidade que conhecemos como Cruzeiro do Sul recebeu, durante alguns anos, o nome de Setembrina, antes de voltar à denominação anterior em 1949. Os livros acompanham essas mudanças, empregando os nomes correspondentes às diferentes épocas.

É um detalhe aparentemente pequeno. Mas demonstra como um acervo familiar pode conservar a marca precisa de um tempo.

Um nome escrito numa ata pode ajudar a datar um documento. Uma assinatura pode permitir identificar um funcionário. Uma referência a uma portaria pode conduzir a um arquivo público. Uma sequência de registros pode revelar que aquilo que parecia uma lembrança isolada fazia parte de uma transformação muito maior.

Por isso, pesquisar a vida de nossos antepassados não é apenas procurar datas de nascimento, casamento e morte. É tentar compreender o mundo em que viveram, as instituições com as quais tiveram de lidar e as circunstâncias que condicionaram suas escolhas.

É também reconhecer os limites do que sabemos.

Ainda precisamos localizar documentos que esclareçam a formação de Siegmundo, identificar melhor os responsáveis pela fiscalização e verificar o alcance de determinadas medidas administrativas. Há pistas promissoras, mas uma pista não é uma prova. A história familiar merece a mesma seriedade que dedicamos à história de qualquer outra pessoa.

A memória não fica menor quando reconhecemos nossas dúvidas. Fica mais confiável.

Para os filhos, sobrinhos, netos e bisnetos

Escrevo estas linhas porque não quero que o nome de Siegmundo Rücker sobreviva apenas como mais um nome numa árvore genealógica.

Quero que as próximas gerações saibam que o Vô Mundo foi um jovem professor num período difícil da história brasileira. Que trabalhou em escolas rurais e paroquiais. Que viveu as transformações de um país empenhado em uniformizar a educação e a identidade nacional. Que sua trajetória ficou registrada em livros que atravessaram décadas e que hoje nos permitem reconstruir uma parte daquele mundo.

Quero também que compreendam que a história não é feita apenas de presidentes, generais e decretos. Ela é feita de pessoas comuns que precisam continuar vivendo enquanto as grandes ideias políticas disputam o controle do país.

A nacionalização do ensino não chegou às comunidades apenas como uma discussão abstrata sobre patriotismo. Chegou por meio de regras, inspeções, programas, exigências e procedimentos. Entrou na rotina de quem abria a escola, preparava os alunos e organizava os exames.

Meu avô viveu essa história sem saber que, décadas depois, alguém da família examinaria seus registros para tentar compreender o significado de cada linha.

Talvez ele jamais tenha imaginado que seus livros se tornariam uma espécie de testemunho histórico. Eles foram feitos para registrar a vida escolar de seu tempo. Hoje, ajudam a contar também a história de nossa família.

E há algo de extraordinário nisso: o professor que registrava o aprendizado de outras pessoas acabou deixando, sem necessariamente pretender, um registro por meio do qual seus próprios descendentes podem aprender.

Aprender sobre ele. Sobre as comunidades em que trabalhou. Sobre a época em que viveu. E sobre os limites que o poder político pode impor à liberdade das pessoas, mesmo quando se apresenta em nome de uma causa aparentemente nobre, como a unidade nacional.

A verdadeira unidade de um país não precisa apagar as diferenças de suas famílias. O pertencimento nacional não exige que alguém renuncie à memória dos antepassados. E nenhuma geração deveria precisar esquecer uma parte de sua história para provar que pertence ao lugar em que nasceu.

Siegmundo nasceu brasileiro. Foi professor no Brasil. E sua trajetória nos lembra que, por trás das discussões sobre identidade nacional, existem vidas que não podem ser reduzidas a uma categoria, a uma origem ou a uma política de governo.

Para nós, ele é o Vô Mundo.

Para a história, é um professor cuja trajetória começa agora a ser compreendida com mais profundidade.

Para os que virão depois de nós, espero que seja também uma lembrança de que a liberdade, a identidade e a memória não são abstrações distantes. São coisas que se vivem no cotidiano, às vezes sem perceber, e que só compreendemos plenamente quando olhamos para trás.

Os livros ficaram.

E, com eles, ficou um pouco do mundo do Vô Mundo.

← Voltar para Família

Compartilhar Adicionar Relato à História