A Travessia
Em 26 de maio de 1828, cinco pessoas com o sobrenome Muskop desembarcaram em São Leopoldo. Vinham de uma aldeia do Palatinado que hoje tem pouco mais de mil habitantes.
Johann Philipp Musskopf tinha 37 anos. Nascera em Kottweiler-Schwanden em 26.02.1791 e fora batizado no dia seguinte, na igreja de Steinwenden, a dois quilômetros de casa. Era filho de Johann Nicolaus Muskopf, que morrera em julho de 1804 com 37 anos — a mesma idade que Philipp tinha ao embarcar.
Veio com a mulher, Maria Katharina Elisabeth, nascida Mai, e três filhos: Heinrich, de 14 anos, Philippine, de 8, e Johann Christian, de 3.
A lista de Hillebrand, 26 de maio de 1828
- Filip Muskop
- Elisabeth, mulher
- Henrique, filho
- Filippe, filho
- Christiano, filho
O registro traz um erro que atravessou cento e setenta anos sem ser notado. "Filippe", anotado como filho, era Philippine — a filha de oito anos, batizada em Steinwenden em 23.01.1819. O escrivão ouviu um nome alemão feminino e escreveu o masculino que conhecia. A correção é de Paulo R. Rücker, que comparou a lista com os registros de batismo.
Por que partiram
A região havia sido despovoada pela Guerra dos Trinta Anos; a recolonização de Kottweiler começa a ser documentada a partir de 1684. Foi para lá que Hans Philipp Muskopf, antepassado de Philipp, mudou-se de Stetten por volta de 1694.
Em 1815 a aldeia tinha 288 habitantes. Entre 1798 e 1814 estivera sob administração francesa, no cantão de Landstuhl; depois passou ao Reino da Baviera — razão pela qual as certidões de óbito lavradas no Brasil registram "Reino da Baviera" e "Baviera Renana" como naturalidade.
As causas da emigração alemã daquele período são conhecidas e se aplicam inteiras ao caso: guerra, fome, crescimento populacional, fracionamento das terras até o ponto em que nenhum lote sustentava uma família, crise econômica no Hunsrück e no Birkenfeld, e serviço militar obrigatório.
A rota
A travessia atlântica terminava no Rio de Janeiro. De lá os colonos seguiam em navegação de cabotagem até o Rio Grande do Sul, e depois rio acima até São Leopoldo. Outras famílias que chegaram na mesma data de 26 de maio de 1828 fizeram o último trecho no costeiro General Abreu.
O nome do navio oceânico ainda não está confirmado. Uma biografia reunida sobre Johann Philipp aponta a galera Fortuna, em sua segunda viagem oficial, com chegada ao Rio em 30 de março de 1828 e desembarque em São Leopoldo pela Armação e Niterói. O acervo compilado a partir do texto original de Paulo R. Rücker, por outro lado, registra o navio como não identificado e lista essa identificação como a primeira lacuna a resolver. As duas versões estão aqui porque nenhuma foi descartada. Quem tiver a lista de passageiros do códice C-333 ou as obras completas de Hunsche e Fey pode encerrar a questão.
Os navios da família
Três embarcações aparecem ligadas ao núcleo familiar, e duas delas estão documentadas com precisão:
| Navio | Ano | Quem veio | Rota |
|---|---|---|---|
| Friedrich | 1825 | Famílias Franck e Dexheimer | Heimersheim → Amsterdam → Rio, 08.11.1825 |
| Brodtrae | 1826 | Família Lautert | Bremen 07.07 → Rio 28.09, 83 dias |
| não confirmado | 1828 | Família Musskopf | → São Leopoldo, 26.05.1828 |
Os três navios importam porque os três ramos se cruzam. Daniel Franck, que viria a casar com Philippine em 1838, chegou no Friedrich aos cuidados dos pais. Juliana Lautert, que casaria com Johann Christian em 1845, atravessou no Brodtrae com cinco anos — um irmão de colo, Sebastian, morreu ao chegar.
O que encontraram
São Leopoldo fora fundada em 25.07.1824, quatro anos antes, com 39 pessoas de nove famílias instaladas na antiga Real Feitoria do Linho Cânhamo. Entre 1824 e 1830 entraram no Rio Grande do Sul cerca de 5.350 alemães, em 42 veleiros transatlânticos documentados.
Em 1830, dois anos após a chegada, Philipp aparece registrado como colono em Morro Jardim, também chamado Bom Jardim — a região entre Ivoti e Estância Velha. O pastor Wolf o anotou como MOSKOPF, Philipp, casado com Katharina Elisabeth Mar.
Morreu em 04.03.1863, aos 72 anos, e foi sepultado dois dias depois pela Igreja Evangélica de Estância Velha. Katharina Elisabeth o precedera em 14.06.1859, sepultada em Ivoti. Trinta e cinco anos separam o desembarque da morte dele. Nesse intervalo a família que chegou com cinco pessoas já tinha netos espalhados por Teutônia, Forquetinha, Santa Maria e São Pedro do Maratá.